Terça-feira, Abril 21, 2009

Will jemand etwas sagen?






Ha uma semana em Berlim, full-time no Festival Brasil Move Berlim.

Chegamos depois de mais de 24 horas em esperas de aeroporto e mais 11 horas numa travessia Sao Paulo-Zurich e de la finalmente Berlim quente e ensolarada.

Eramos os primeiros e fomos recebidos por Wagner e Dirk excitados com o inicio do festival. Do hotel Express Holliday Inn direto pro escritorio do festival, reuniao, detalhes, agenda e uma passada pelo teatro.

Dia seguinte cedo no teatro HAU 1 com toda a nossa equipe - metade dela vinda de Amsterdam - e uma equipe de mais de 15 pessoas daqui, entre tecnicos de palco, luz, som, legenda, mais tradutores, maquinistas e os bombeiros que chegaram no dia seguinte, pra tomar de conta de um unico cigarro fumado em cena no Bull Dancing.

Vamos pular o stress da chegada e da primeira comunicacao com essa equipe acostumada a ter tudo absolutamente planejado em seus minimos detalhes com um rigor literalmente alemao. Pularemos tambem a queda-de-braco entre eu e Wolfgang (que passou a ser chamado de Amadeus, ou Mozart), o diretor de palco do teatro, por causa dos ganchos de metal do cenario que ele desaprovou completamente. So nao da pra pular a constatacao de um certo incomodo que se criou na torre de babel que foi instalada ali no primeiro momento da montagem, quando se falava alemao, portugues, ingles e holandes, essa ultima lingua para total surpresa dos alemaes. O que acontece e' que existe uma rixa entre alemaes e holandeses, os primeiros porque acham que holandes nao e' lingua mas uma "distorcao" da lingua deles, e os segundos por causa da maldita segunda guerra, que destruiu metade do (pequeno) pais deles, e que ainda hoje da o que falar, passando de uma geracao a outra.

Gracas a nossa "anja da guarda" Teresa e o diretor tecnico do festival, Max, sobrevivemos ao primeiro dia, e ainda conseguimos fazer uma passada corrida as oito e meia da noite, com o fabian chegando literalmente do aeroporto com a Loes e entrando direto em cena, sem tempo nem de conversar sobre nada.

Na tarde do dia seguinte tínhamos sido avisados de que teriamos que fazer algumas cenas para um video e algumas fotos de publicidade. Ate ai tudo bem. O problema foi quando saimos despreocupadamente do camarim para o tal video e fotos e nos deparamos com uma quantidade enorme de jornalistas, cameras, tripes, flashes e o escambau, como eu nunca tinha visto antes, espalhados pela plateia. Devia ter umas 50 pessoas ali cada uma com um aparelho na mao mirando pro palco. Sabe aquela foto dos indios do Xingu sendo fotografados em Brasilia? Ou aquelas cenas de saida de tribunal de caso grave? Me senti assim.

Na quinta-feira 16 abrimos o festival com a casa cheia, mais de 500 lugares, divididos em uma plateia e dois balcoes um sobre o outro. Wagner fez um pequeno discurso em Portugues abrindo o festival e nos apresentando rapidamente. Dirk falou em seguida em alemao e abriu falando da cidade de Teresina, no Piaui e da visita dele a cidade. Falou do espetaculo em seguida, ressaltando os aspectos politicos e sociais, a ideia de ritual, o boi, a lingua, a gravidez de Catirina, o racional e o irracional no espetaculo.

Nos esperavamos tomando umas dosezinhas de cacahaca mangueira na cochia esquerda do palco, acompanhando pelo monitor, misturado a tecnicos e bombeiros e ali tambem esperando conosco, o diretor da Funarte, Sergio Mamberte, que iria entrar para uma fala e que tambem parecia nervoso, cochichando e rindo baixinho como nos.

O espetaculo foi bom mas tenso, com a respiracao presa, um pouco corrido e alguns vacilos nossos e da tecnica.
Fomos do camarim para o foyer tambem lotado para uma recepacao com paezinhos e (bom) champagne oferecido pelo consulado brasileiro. O embaixador nos cumprimentou a todos muito animado, embora com aquele ar solene de autoridade, falando da importancia do festival para a cultura brasileira.

O Mamberti mandou me chamar e fui sentar do lado dele pruma conversa de pe -de-orelha. Ele gostou muito e falou emocionado do Brasil, da situacao dos indios brasileiros, da violencia, das festas de rua brasileiras e do homoerotismo tambem presente no espetaculo. Se tem uma coisa que me deixa satisfeito e' quando se usa um espetaculo (meu ou de quem quer que seja) pra falar de questoes mais amplas, questoes da realidade, fazendo uma relacao com o mundo em que vivemos.

O segundo dia foi muito melhor, depois das notas precisas da Loes. Encontrar a respiracao do corpo todo, estar no momento. A surpresa foi a questao "alguem quer dizer alguma coisa", que diferente do dia anterior de silencio profundo, choveu gritos de protesto em portugues, alemao, espanhol e ingles, enquanto pessoas se retiravam. Alguns vaiavam, mandavam parar, "chega de violencia!" e tive medo quando um brasileiro falou em voz grossa bem alto "se nao parar de bater na mulher agora eu subo ai e dou porrada no cara".

Voltamos varias vezes para os aplausos ainda no meio da confusao da sala, nesse entra-e-sai do aplauso europeu, que tenho que confessar, sinto falta no Brasil.

Fomos levados de novo ao foyer do teatro dessa vez para um bate papo com o publico, todos enfileirados numa mesa com microfones e uma tradutora fodona, com uma presenca bem grande de publico brasileiro e alemao, e muitas, muitas perguntas. As questoes giravam principalmente em torno da ideia de ritual, daqui e de la, mas teve ate uma maranhense que puxou orgulhosa o fato de termos usado a toada do boi da maioba.

No dia seguinte o jornal Berliner Zeitung, um dos mais importantes jornais alemaes, publicou uma critica elogiosa com o titulo "Will jemand etwas sagen?" (Alguem quer dizer alguma coisa?) falando do "preco da fraqueza dos homens" (se referindo ao preco do corpo vendido no inicio do espetaculo e "abatido" no final). As revistas TIP e ZITTY tambem publicaram materias e comentarios com fotos.

Sem falsas modestias me sinto orgulhoso com o dever cumprido e de ter chegado a quase 40 apresentacoes desse espetaculo, que quando estreiou no Piaui em 2006, a critica de Teresina comecava dizendo que esse nao era o meu melhor espetaculo, pra dizer que na verdade nao era bom, ou nao valia a pena, talvez so pra confirmar a baixa auto estima e uma descrença com relacao a tudo o que e' feito ai.

O festival continua com aquele ti-ti-ti tipico dos festivais e agora temos um pouco mais de tempo pra desfrutar da cidade de Berlim banhada pelo sol da primavera.

Fico sabendo que o nucleo se reuniu ontem na oficina mecanica da morada do sol e sou pauta da reuniao, nao por motivos que me deixem necessariamente orgulhoso.

O oceano atlantico separa os continentes e me pergunto quantos oceanos separam os seres humanos, nessa incapacidade tao humana de nos compreendermos e aceitarmos, para alem das dores e das delicias de se estar vivo.

Tschusssss!

Marcelo Evelin.

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4 comentários:

L.H. disse...
7:46 AM  

Nossa muito bom ler tudo isso Marcelo, passa um "filminho" na cabeça e fico imaginando que sim sim sim sim deve ter sido muito bom. Começo a entender melhor essa coisa de "sinto falta disso no brasil"....

Uma última coisa: a reunião na morada do sol foi tranquila e objetiva, muitas pautas lhe deixariam "orgulhoso". Relax careca! Hoje, já conseguimos atravessar o oceano atlântico, e nossas incapacidades tão humanas estão a todo instante se reconfigurando. Por aqui somos muitos e diferentes....

Um grande beijo!

La disse...
6:09 AM  

Pra mim so faz sentido trabalhar pra falar do que vivo,ou do que e real a mim e ao meu redor,porque e do que sou feita ou do que somos feitos.E fico cada dia mais curiosa sobre "ser humano",sobre o que nos torna proximos e o que nos afasta?Essa semana li uma materia daquela revista TRIP que voce deixou pra mim antes de ir embora daqui,numa dessas longas horas que o tempo parece o mesmo aqui,que fala sobre essa correria pela hegemonia do mundo,o quanto isso mata culturas,o quanto torna o mundo mais fraco,e o quanto confirma nao uma necessidade natural,mais a sobrevivencia de ambicao-egoismo que alimenta as guerras mascaradas em falas "ameaca para o mundo" "sao barbaros" "quando chego em timon me sinto estrangeira" ...SORAYA

layane holanda disse...
12:10 PM  

Sei que não é fácil conviver com essas diferenças culturais, que podemos também chamar de atraso.

O seu trabalho sempre foi referência pra mim e pra muitos teresinenses. Muitos que sabem o valor e a força que tem.
As questões colocadas no bull dancing são pertinentes.Essa pertinência também incomoda, pode ter certeza. Por que mexe lá dentro. Cutuca em feridas, que alguns não querem sentir.

Espero que + e + e + 40 apresentações do Bull Dancing sejam feitas, em todos os lugares possíveis.Aqui vou ficar torcendo e me orguhando cada vez mais.

Ps:estamos aqui discutindo muito sobre o trabalho e a situação.

layane holanda disse...
12:11 PM  

PS:O comentário acima é de Weyla Carvalho, postado via e-mail nucleo de criação.