
A noite apenas começava e a rotina de São Joaquim* não era mais a mesma. Uma composição pagã e religiosa surpreendia os habitantes dessa pacata comunidade acostumada com os mesmos acontecimentos, alguns construtivos, outros destrutivos e muito carente de momentos inusitados como o que pude observar, sem isolar-me no lugar de observador.
Uma catirina mais jovem e outra mais experiente. As mesmas do bumba-meu-boi. Dois judas feitos de roupas, cabaças e outras quinquilharias.Uma gaita que volta e meia soava melodias desafinadas em companhia de um pandeiro discreto e preguiçoso. Crianças em estado de êxtase, gritavam, corriam e bulinavam com tudo e todos. Jovens bem arrumados para o baile "funk", para dentro de instantes serem absorvidos pelo alcóol e demais orgias e uma pseudo alegria de um mundo triste e velho com problemas caducos e agressivos.
Da igreja católica, senhoras saiam (des)animadas de uma celebração que antecedia a páscoa cristã, numa noite fria e com uma lua pálida e solitária. Os evangélicos insensíveis a tudo isto, na sua respectiva igreja, ostentavam luxuosos carros, numa cena nunca vista antes naquela praça de nome nobre "Senhorinha Muniz" e com alguns episódios, nem tanto.
A cena estaria completa se nela existisse um testamento, escrito pelos inanimados judas e lido em alto e bom som, deixasse como herança principalmente a cadeia para os judas contemporâneos, que entre outras mazelas por eles produzidas, roubam-nos o direito à educação, saúde, moradia, cultura, ao trabalho... e ardessem no fogo infernal, o mesmo que queimaria aqueles bonecos que ao final desta história serão cinzas que o vento soprará da memória de muitos, quando a vida real lhes tomar de assalto.
marber ramos sábado de aleluia, 11 de abril
*distrito que DEPENDE da cidade de Coração de Jesus (norte de Minas Gerais).
Galeria dança e artes plásticas
51 minutos atrás






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