A valsa sob a tempestade.
Desafiar-se na produção da dança contemporânea no Piauí é andar a pequenos passos em uma corda bamba. À mão, a parcela de incentivo financeiro, estatal ou privado - representado por um guarda-chuva. Sob sapatos entupidas de dois pés, um cordão velho a ponto de se romper - que ilustra falta de mercado e uma infinidade de razões que incitam o artista a abandonar a atividade. Pelos lados, as mais diferentes rajadas de vento, em forma da ausência de crítica especializada, turbilhão da cultura de massa e o regionalismo assombrado pela reprodutibilidade técnica do velho Walter, que ainda assusta.
Deslizar palavras pra entender o contexto em que se insere o Núcleo do Dirceu, que em 2006 cravou o estandarte da dança contemporânea na personalidade de Teresina e do Piauí, é lembrar-se de frase de João Pereira Coutinho. Em 2008, em São Paulo, ouvi o jornalista português falar sobre a quase impossibilidade de produzir cultura em ambientes e sociedades de crise total. Salvando as aspas e realocando o discurso, provar que a dança pode ser um interlocutor do pensamento e do espírito humano é, na capital piauiense, “patinar sobre o gelo fino”.
O primeiro ponto que expõe a fragilidade da camada que suporta as intenções do Núcleo do Dirceu vem do fator não-comercial. O coletivo de artistas que utiliza várias plataformas midiáticas para chegar ao corpo veículo final, tenta exorcizar da dança, a maldição de Walter Benjamin. Eles tentam pregar contra a cópia – não de uma obra, mas de características – do que resumem um estereotipo de cultura piauiense. Eleva-se a qualidade, caí o potencial de venda. Mas por quê?
Porque cultura no Piauí é atraída por uma draga institucional e coberta pela crosta da “tradição”. O tal dragão de sete cabeças da reprodutibilidade técnica engole o cavaleiro quando a exposição de um modo de pensar através da arte deixa de ser, essencialmente, do indivíduo, para se tornar tradicional. Se na veia da cultura corre o sangue do sentimento, e a cultura do Piauí é sua tradição, todos os piauienses podem encontrar suas emoções engarrafas com cajuína e moldadas com imagens santeiras em uma Central de Artesanato?
Once upon a time we needed a fix...
Minha impressão é que a sociedade piauiense diz não. Ao menos a urbana, de Teresina. A exemplo, fora do mundo da dança, aparece o tropical Torquato Neto. Ícone de subversão na Tropicália, e artista multifacetado que se consagrou justamente por ter um traço absurdamente pessoal em suas obras, foi vítima a necrofilia da arte. Que o transformou em nome de batismo para centros universitários, salas de apresentação de teatro e série de outros institucionais. Mas o resultado de um trabalho de pesquisa que eu realizei em 2008, “Torquato Neto: Sob Mitos e Hipóteses” me indicou que sua obra ainda é totalmente desconhecida pela população da cidade. A presença com pensamento vivo é essencialmente alegórica, restrita a acadêmicos e pesquisadores.
Para a institucionalização do resultado produção cultural, o Núcleo do Dirceu diz não. Não por recusar signos que existem antes dele e da vida de seus integrantes. Mas por escancarar o processo de criação do trabalho a influências de todos os meios e direções.
Acompanhando o destilar do pensador francês Lipovetsky, que denota os zilhões de referenciais de cada ser humano como necessários de reconhecimento. Não por serem bons, ou por serem maus, mas simplesmente por serem intrínsecos.
Caminhando paralelamente, a nossa realidade possui o Youtube, e a possibilidade de todos serem jornalistas. Também mash-ups, e a possibilidades de todos serem músicos. E entre inúmeros outros exemplos, os blogs, e a possibilidade de todos serem escritores, poetas, cronistas. Eles nos mostram que os antigos formadores de opiniões, hall em que artistas estão inclusos, devem possuir hoje um papel que tem mais contornos de mediadores e não de detentores do conhecimento – se almejarem um valor de contemporaneidade.
O Núcleo do Dirceu, que há quatro anos nasceu em se instala no bairro periférico homônimo que é casa de 250 mil teresinenses, trabalha com a dança – também o produto artístico com menos apelo de produto, uma vez que é muitas vezes reconhecido por ser instintivo – e com o corpo interlocutor. A força e a labuta são para mostrar que o corpo pode oferecer não apenas movimentos. Mas levar uma mensagem filosófica, uma mensagem musical, uma mensagem cinematográfica, uma mensagem plástica, uma mensagem política. Um convite ao raciocínio.
Por eles, a valsa sob a tempestade já foi dançada sob as pancadas de falta de reconhecimento. Não ao artístico, uma vez que o trabalho recolhe bons comentários e aceitação nas apresentações por todo o Brasil e mundo – mais de 15, só em 2009. Mas ausência do olhar público e empresarial, que já coloriu de vermelho as contas do coletivo algumas ocasiões desde que ele se emancipou e adquiriu casa própria.
Hoje, em março de 2010, o Núcleo do Dirceu pode finalmente dizer que respira ares mais leves. O Núcleo soma a si, o fomento de três esferas. Governo do Estado do Piauí, Ministério da Cultura e Petrobrás, investem uma base inédita. A possibilidade de um coletivo de artistas sustentar-se exclusivamente por pela realização do seu trabalho toma contornos mais fortes. Mantendo a escolha por um modelo de organização não hierárquico, e um posicionamento político que permuta trabalho na comunidade do bairro Dirceu com desenvolvimento aberto de seus artistas integrantes.
Arte contemporânea não entrega uma resposta ao público em sua resolução. Fita-o pelo colarinho e o agarra pela mão, oferecendo um processo de pensar no existir. Cada homem-personagem tem suas dúvidas e agonias e felicidades individuais. Se conhecer a si mesmo é um pontapé necessário para conhecer ao próximo, contribuindo assim, melhor com a sociedade, esse é um dos valores do Núcleo do Dirceu.
...but now we are doin' fine.
Que é o suficiente para vida em um espaço que supera dificuldades, e que hoje tem como maior empecilho em abrir suas portas, uma falta de graxa desgraçada no portão do galpão que fica no número 3228 da rua Jaime Fortes. A tempestade abranda no início do mês de chuvas. Em Teresina, Piauí, Brasil.
Texto: Igor Prado
Fotos: Valério Araújo